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4.04.2007
O peso das coisas
Nasceu em 1952, em Matungos, Minas Gerais. Era Páscoa, batizaram. Verônica. Desde cedo a menina ajudou na quitanda do pai. Pegar uma lata aqui, levar um embrulho ali. O de sempre. Um dia, sentada no banco comprido de madeira, o pai lhe deu uma saca de café dizendo que segurasse com jeito, que ia passar no moedor. O moeu todo. Mas no momento de o pesar, Verônica avaliou. Pesa tanto, pai. Que. Pesa tanto. Deixa de bobeira, menina, não sabe nem contar direito. Pesa tanto. É o diaxo! Pesou. Era tanto, mesmo. Desconfiado, o pai pegou da peça de charque e pôs no colo de Verônica. E isso. É tanto. Conferindo, era.
A filha passou a ser mais confiável que a balança. Companheira de balcão, requisitada. Mais jeitosa que uma balança. A professora não acreditou. Os doutores não acreditaram. Porque o colo da menina calculava o peso das coisas com mais exatidão que as balanças analógicas, todos corriam a ela, o farmacêutico, as benzedeiras, mulheres embaraçadas e o ourives. Ela envelhecia, requisitada. Se apaixonou. E de novo. E mais uma vez. Todos partiram. Ela ficou. A universidade queria inventar um novo sistema de pesos baseado em suas coxas, os médicos achavam improvável que elas diferenciassem massa abaixo de 0,0005 miliveros. A cada dia. A cada dia ela pegava mais asco das incertezas das coisas. Morreu aos 49, sozinha, em Barbacena.
A filha passou a ser mais confiável que a balança. Companheira de balcão, requisitada. Mais jeitosa que uma balança. A professora não acreditou. Os doutores não acreditaram. Porque o colo da menina calculava o peso das coisas com mais exatidão que as balanças analógicas, todos corriam a ela, o farmacêutico, as benzedeiras, mulheres embaraçadas e o ourives. Ela envelhecia, requisitada. Se apaixonou. E de novo. E mais uma vez. Todos partiram. Ela ficou. A universidade queria inventar um novo sistema de pesos baseado em suas coxas, os médicos achavam improvável que elas diferenciassem massa abaixo de 0,0005 miliveros. A cada dia. A cada dia ela pegava mais asco das incertezas das coisas. Morreu aos 49, sozinha, em Barbacena.
2.12.2007
Eu e eu mesmo, sem tirar pra lavar.
Estou há uma semana comigo. É como ficar uma semana com a mesma cueca. É até agradável, no começo. Depois a gente fica incomodado. Você começa a grudar em você mesmo, algumas partes pinicam, outras apertam. Tudo coça. É o tédio. Dá vontade de se matar, sabe, ou coisa pior. Sei lá, virar crente. E a Bruxa do Oeste está confortavelmente esmagada debaixo da casa. Taí uma boa lição de vida. Ou de morte. Sei lá. Queria tatuar Do not disturb. Dentro da minha cabeça.
5.30.2006
A mulher que buscava Algo com a ponta do dedo.
A insaciável, depois de procurar no alto dos montes, em imagens sem rosto e no fundo de poços abandonados, passou a ir de beco em beco, aguardando ansiosamente a revelação de uma fresta num canto, a simetria em uma mancha na parede ou redemoinho de pó. Deteu-se a decifrar as vigas subterrâneas da vida.
O contato com restos de comida e plásticos das sarjetas tornou-a mais desperta ao mundo sensível – mas o que ela buscava encontrava-se além do lodo no qual se punha a questionar o reflexo do céu – fazendo com que toda a relação direta com a realidade se tornasse intolerável. Assim, uma simples pedrinha hachurada era indício de um rio antepassado e uma clareira; uma ponta de lápis, uma semente perdida no interior da terra e do tronco que se transforma em pedra, em cadeias de referência que se desdobravam ao infinito.Viveu desta forma por muitos anos, apreendendo o mundo através do conhecimento pleno dos signos, sem, contudo, encontrar nada, nem sequer uma trilha absoluta, uma pegada inequívoca. Nada.
No fim da vida teve um colapso nervoso; caiu de cama. O trato diário fazia-a encostar muito em si mesma. Nunca imaginou tantas certezas concretas ali. Com a ponta do dedo se perscrutava longamente, cada orifício e articulação. Em meio às dobras de seu corpo ela encontrava, enfim, uma pequena centelha de satisfação. Uma satisfação morna como uma toca.
Nesses primeiros meses, ela-coelho levantava-se cedo, caminhava até a mesa e, ainda trêmula, escrevia suas úmidas visões.
O contato com restos de comida e plásticos das sarjetas tornou-a mais desperta ao mundo sensível – mas o que ela buscava encontrava-se além do lodo no qual se punha a questionar o reflexo do céu – fazendo com que toda a relação direta com a realidade se tornasse intolerável. Assim, uma simples pedrinha hachurada era indício de um rio antepassado e uma clareira; uma ponta de lápis, uma semente perdida no interior da terra e do tronco que se transforma em pedra, em cadeias de referência que se desdobravam ao infinito.Viveu desta forma por muitos anos, apreendendo o mundo através do conhecimento pleno dos signos, sem, contudo, encontrar nada, nem sequer uma trilha absoluta, uma pegada inequívoca. Nada.
No fim da vida teve um colapso nervoso; caiu de cama. O trato diário fazia-a encostar muito em si mesma. Nunca imaginou tantas certezas concretas ali. Com a ponta do dedo se perscrutava longamente, cada orifício e articulação. Em meio às dobras de seu corpo ela encontrava, enfim, uma pequena centelha de satisfação. Uma satisfação morna como uma toca.
Nesses primeiros meses, ela-coelho levantava-se cedo, caminhava até a mesa e, ainda trêmula, escrevia suas úmidas visões.
4.24.2006
O Gigante
Quando o vi se aproximar de mim, estremeci. Pensei que pudesse vir parar do meu lado, esbarrar a mão em mim. De repente se machuca, se fere pra valer. Ele parecia um daqueles gigantes que vivem nas estórias de antigamente, Polifemo, Golias, Hércules. O homem quase tocava o teto do trem enquanto caminhava. Então reparei na bengala em sua mão. Ele guiava uma outra pessoa, uma mulher, também cega. Passaram lentamente. Pararam no fundo do vagão, provavelmente iriam dizer algo importante, sim, a mulher ajeita o cabelo, tira uma mecha rebelde que teima em ficar-lhe no rosto, uma mulher sempre tenta ficar mais bonita quando quer se ouvida. O gigante põe-se um pouco à frente, com as pernas ligeiramente afastadas para manter o equilíbrio. O trem se movimenta devagar. É o gigante quem fala. Pede uma colaboração, uma ajuda pelo amor de Deus, os tempos estão difíceis, falta comida, trabalho, falta ajuda gente, o chão está absurdamente limpo naquele vagão. Eles passam recolhendo as caridades, se chegam à porta, vão sair. O homem curva a cabeça, parece uma criança saindo de dentro de uma gruta. Fora, através da janela embaçada do vagão, vejo o majestoso Pico do Jaraguá, encoberto por muita poluição, distante, longe mesmo, diria que nem existe.
O Pico do Jaraguá é o fantasma de um mamute com uma presa só.
O Pico do Jaraguá é o fantasma de um mamute com uma presa só.
4.21.2006
Um enxu caiu no banco da pracinha.
A primeira vez que eu e Juju nos roçamos,
ali, naquele mesmo banco,
senti uma picada de vespa nos meus gruguminhos.
Parecia um curisco.
À noite me banhei muito.
A primeira vez que eu e Juju nos roçamos,
ali, naquele mesmo banco,
senti uma picada de vespa nos meus gruguminhos.
Parecia um curisco.
À noite me banhei muito.
2.02.2006
Um menino velho me chamou pra comer égua.
Égua é um bicho feito de pêlo, de bosta e de um cheiro quente e doce de garupa.
Égua cava a terra com água.
A égua é cavalo?
Carne de cavalo é dura como curva de coice?
O menino velho falava em boconês.
Égua é um bicho feito de pêlo, de bosta e de um cheiro quente e doce de garupa.
Égua cava a terra com água.
A égua é cavalo?
Carne de cavalo é dura como curva de coice?
O menino velho falava em boconês.
1.27.2006
Eram dois sorvetes
Eram dois sorvetes de limão: sabiam que iria acabar logo, que em um instante só restaria o copinho úmido - mas a satisfação de um desejo tem sabor de comida feita em casa. Para ela doeu um pouco. Não importava agora, o leite já estava derramado mesmo, só gostaria de tomar um banho sozinha e se molhar tanto tanto que o dentro e o fora fossem um - porque acreditava que aí sim se sentiria um pouco melhor; mais inteiramente nada e apenas nem: uma água-viva morta em mar alto. Ele continuava deitado com aquela cara de pedra de amolar gasta - Tá tudo bem? Ela ouviu aquela voz que parecia de outra pessoa, afastou as doloridas lascas de aluminio e o que viu foi a própria mão molhada. A água escura escorria e se perdia entre os vão de seus dedos curtos para nunca mais voltar. Sentia-se já mortalha de si.